Todos os dias...

Um exercício leve de um texto narrativo em primeira pessoa.
Todos os dias era a mesma rotina. Acordar antes do sol, contar meus segredos para as estrelas.
O barulho do chuveiro sufocava o da chaleira que apitava.
Biscoito integral, geleia orgânica, café com leite, ou leite com café? E uma fruta pra mais tarde. Respirar fundo e se preparar. Falta pouco.
Fazer força, empurrar e entrar. Segurar no ferro com uma mão e a bolsa com a outra. Todos fingem dormir. Cansa um braço, troca, cansa o outro. Apertam do lado direito, do esquerdo, cada vez menos espaço.
Um olho se abre pela metade e quando me vê volta logo a dormir. Será que sou tão feia? Será que meu perfume provoca sono?
Já não sinto uma das pernas, e nada de chegar. Penso em fingir um desmaio... Vou me atrasar. Sou empurrada pra fora, agora não foi preciso esforço.
Esse quadrado subindo me deixa sem ar. Respiro fundo... Abre, fecha, abre, fecha... Dois minutos entediantes.
Uma mesa enfeitada com bolas, bonecos, fraudas, chupetas, mamadeiras, muitos doces e um nome escrito no bolo: Sophia. Percebo que tudo isso valeu a pena.

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A História de um cenário

Esse exercício foi diferente. Um colega da oficina de texto escreveu a descrição de um cenário (não entendi bem a letra) e eu precisava criar um personagem e uma historia se passando dentro desse cenário.
Cenário
"Copo d’agua, com alguns pingos como pequenas poças que eram, no máximo, umas três. Papéis largos e claros parecendo cartolinas acompanhada de lapiseiras negras com bordas douradas anunciando uma marca francesa, dada de presente. Instrumentos feitos para a mesa e alguns deixados no chão, triangular, retangular e circulares são as formas que definem.
O chão, por onde os instrumentos estão, é feito da madeira de onde o copo, os papéis, as lapiseiras é feita de uma madeira lustrada recentemente (...) mas que havia deixada cortes pequenos e nada grande, por alguma (...) esquecida. Os papéis que estavam neste chão foram deixados lá, para serem recolhidos por quem quer que seja e foram assim como a lapiseira da marca francesa de borda dourada, (...) por este como presente de uma viagem de alguns dias e nele estava a borracha e o copo d’agua, os instrumentos e o resto de ajustes (...) por onde entrava a luz de uma cidade invisível." Luiz
Historia do cenário
Está bem escuro. Ele irá encontrar seus filhos ao amanhecer. Sentado na sua poltrona de couro, permanece ouvindo o som do silêncio e escrevendo em papéis que se parecem com cartolinas. Usa sua lapiseira negra com borda dourada que ganhou de presente, quantas lembranças da viagem que fizeram à França. Sente falta da presença das crianças e não sabe demonstrar pra eles o quanto os ama, o quanto são importantes para ele.
Quando estavam juntos, brincavam o tempo todo, desde jogar videogame até jogo de tabuleiro. Ah... você não deve saber o que é jogo de tabuleiro, né? Deve ser muito novo pra isso... Mas eles adoravam! Eram momentos maravilhosos que passavam juntos.
Seus filhos são crianças excelentes, com certeza serão ótimos adultos. Sortudas serão as mulheres que se casarem com eles. Eles serão maridos melhores que seu pai foi. Ele errou, o orgulho o fez perder a pessoa que mais amou. Por mais que ele pensasse em recomeçar, agora era tarde. Já existia outro ao lado dela na cama.
Assim que ele levanta, fica tonto e começa a derrubar coisas que estão em cima da mesa. Sente uma dor forte no peito. De uma de suas mãos cai o copo com o resto de água que bebia. Da outra, a lapiseira francesa junto com os papéis que se espalham pelo chão.
O chão, de madeira, lustrado recentemente, recebe o peso do seu corpo. As últimas coisas que ele vê são o copo e algumas coisas que não consegue identificar. Apenas vê formas triangulares, retangulares e circulares e folhas com o texto que acabou de escrever. Olha para elas como quem se despede de alguém com muito amor.
Apagou a luz da “cidade” invisível.

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Movimento

Fecho, abro a mão. Fecho, abro a mão. Fecho, seguro firme, amarram uma espécie de elástico no meu braço, ele aperta e dói. Agora posso abrir a mão outra vez.
A voz diz que não vai doer. Não é tão rápido quanto falam. Sinto a agulha entrando na minha pele. Dizem que ela tem várias camadas. Parece que sinto a agulha tocando cada uma delas e perfura a veia. Dói sim.
Flui o sangue, é lindo. Forte, vermelho escuro, intenso. Aquele jato fino vai enchendo com força o frasco. A vida corre. Outro frasco? Humm... Não gostei. Mais um, no frasco estava escrito PCR, não sei pra que serve isso, mas deve ser importante. Será preciso quantos? Já estamos no quarto e não para. Esse eu conheço, um tal de T4, minha mãe sempre precisa fazer esse, ela tem hipotireoidismo. A enfermeira coloca mais um, ela conversa sobre o dia dela com a amiga sem nem se importar de eu estar ali com meu sangue jorrando. O sangue já não está tão forte nesse frasco, parece que já está cansado do serviço, será que está acabando? Ela deve ter tirado todo o sangue que eu tinha. — É o último, ela avisa. Fico feliz, nunca imaginei que conseguiriam tirar oito tubos de sangue de mim e ainda permanecer vivo. Parece um menu de sangue para ser servido no jantar.
Ela tira a agulha, remove o elástico e meu braço relaxa. Coloca um algodão para segurar o resto de sangue que ainda queira sair. É um aviso para ele de que fez um bom trabalho.
— Pronto, não doeu nada, diz ela.
Ah... Se ela soubesse.

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