Movimento

Fecho, abro a mão. Fecho, abro a mão. Fecho, seguro firme, amarram uma espécie de elástico no meu braço, ele aperta e dói. Agora posso abrir a mão outra vez.
A voz diz que não vai doer. Não é tão rápido quanto falam. Sinto a agulha entrando na minha pele. Dizem que ela tem várias camadas. Parece que sinto a agulha tocando cada uma delas e perfura a veia. Dói sim.
Flui o sangue, é lindo. Forte, vermelho escuro, intenso. Aquele jato fino vai enchendo com força o frasco. A vida corre. Outro frasco? Humm... Não gostei. Mais um, no frasco estava escrito PCR, não sei pra que serve isso, mas deve ser importante. Será preciso quantos? Já estamos no quarto e não para. Esse eu conheço, um tal de T4, minha mãe sempre precisa fazer esse, ela tem hipotireoidismo. A enfermeira coloca mais um, ela conversa sobre o dia dela com a amiga sem nem se importar de eu estar ali com meu sangue jorrando. O sangue já não está tão forte nesse frasco, parece que já está cansado do serviço, será que está acabando? Ela deve ter tirado todo o sangue que eu tinha. — É o último, ela avisa. Fico feliz, nunca imaginei que conseguiriam tirar oito tubos de sangue de mim e ainda permanecer vivo. Parece um menu de sangue para ser servido no jantar.
Ela tira a agulha, remove o elástico e meu braço relaxa. Coloca um algodão para segurar o resto de sangue que ainda queira sair. É um aviso para ele de que fez um bom trabalho.
— Pronto, não doeu nada, diz ela.
Ah... Se ela soubesse.

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Minha rosa

"Tu és, divina e graciosa
Estátua majestosa do amor...”
Seria essa a mais sedutora das flores? A queridinha dos casais apaixonados? Que se faz sensível em suas pétalas e forte em seus espinhos? E “espinho não machuca a flor.”
Seria essa aquela “que começou a crescer e parecia vir do nada? Que ficou horas se arrumando e ajeitando suas pétalas? E é linda! Mas também orgulhosa, caprichosa e contraditória. Embora pareça contraditória a rosa é extremamente feminina e sedutora, e cativou o coração do Pequeno Príncipe.”
Nenhuma dessas se compara a ela...
Eu precisava reencontrá-la. Quanto tempo eu perdi. Ah... Se eu pudesse voltar no tempo. Ela teria orgulho de ver a terra fértil germinando. Ela cultivava plantas em jarros, pois nem eu, nem nenhum outro, tínhamos interesse em restaurar aquele lugar no fundo do quintal. Nunca vi alguém ter tanto prazer em cuidar das suas plantas como minha avó.
Quando ouvi o primeiro estalo do desabrochar das flores, tive certeza que valeu a pena esperar por ela.
Rosa- Pixinguinha/ A flor e o espinho – Nelson Cavaquinho/ Pequeno Príncipe- Antoine de Saint-Exupery

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Os sons que ouvi

Acordei ao seu lado, olhei o seu rosto. Era tão lindo. Seus lábios tão marcantes. Tive vontade de beijá-lo, mas seu sono era tão profundo que não quis despertá-lo. O amei ali, em silêncio, só.
O dia era lindo, da varanda do AP eu via a beleza do horizonte. Que brilho! Um tom azul celeste que ao centro parece que foi feito um efeito reflexo de flash sobre um azul cristalino em constante movimento, trazendo consigo um som que, a meu ver, parecia bastante melancólico.
Ouvi mais um som, era da água do chuveiro caindo, como quem chora. Ele viria logo e as gotas demoram a passar pela cafeteira. Outro som, dessa vez era o barulho da porta batendo, nunca de palavras.
Desliguei a cafeteira, “joguei” uma roupa no corpo e corri. Corri em direção àquele horizonte que eu via da varanda. A sandália ficou perdida em algum lugar... Na minha cabeça milhões de perguntas que eu não conseguia encontrar respostas.
Sentei sobre aqueles incontáveis grãos que antes eram uma rocha inteira, mas que durante anos sofreu desgaste tonando-se pequenos pedaços partidos que viriam a morrer lá no fundo, sem que ninguém os visse, não aguentando o enorme peso que o tempo traria sobre eles, e que era parte deles.
Ouvi, também, o som de várias línguas em conversas distantes. Pessoas de todas as raças, cores, lugares... Aqui é a “Princesinha do Mar”, cartão postal e o centro das atenções. Lugar onde todos desejavam estar, menos eu, só por hoje.
Ainda era possível ouvir no ar um som de Bossa Nova, era quase que um perfume espalhado por todo lugar. Lugar de amantes que hoje abrigava um coração partido.
Foi aqui que o vi pela primeira vez, foi aqui que o amei, foi aqui que fui feliz.
Fui: verbo ser no passado. Quem diria que um dia o conjugaria assim, trazendo depois dele o adjetivo mais cobiçado do mundo.

P.S: Não é baseado em fatos reais.


Jaqueline Aguiar.

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